Inveja do pênis – Simone Beauvoir

Há poucas questões mais discutidas pelos psicanalistas do que o famoso “complexo de castração” feminino. Em sua maioria, admitem eles hoje que o desejo de um pênis se apresenta, segundo os casos, de maneira muito diferente. Primeiramente, há muitas meninas que ignoram, até idade avançada, a anatomia masculina. A criança aceita naturalmente que haja homens e mulheres como há um sol e uma lua: ela acredita em essências contidas nessas palavras e sua curiosidade não é a princípio analítica. Para muitas outras, o pedacinho de carne que pende entre as pernas do menino é insignificante e até irrisório; é uma singularidade que se confunde com a das roupas e do penteado; é, muitas vezes, num irmãozinho recém-nascido que ela descobre essa singularidade e, “quando a menina é muito pequena”, diz H. Deutsch, “não se impressiona com o pênis do irmãozinho”; e cita o exemplo de uma menina de dezoito meses que permaneceu absolutamente indiferente à descoberta do pênis e só lhe deu valor muito mais tarde, em relação com suas preocupações pessoais. Acontece mesmo que o pênis seja considerado uma anomalia: é uma excrescência, uma coisa vaga que pende como um lobinho, uma teta, uma verruga; pode inspirar repugnância. Enfim, há casos numerosos em que a menina se interessa pelo pênis do irmão ou de um colega, mas isso não significa que sinta uma inveja
propriamente sexual e ainda menos que se sinta profundamente atingida pela ausência desse órgão; ela deseja apossar-se dele como almeja apossar-se de qualquer objeto; mas esse desejo pode permanecer superficial.

É certo que as funções excretórias, e particularmente as funções urinárias, interessam apaixonadamente as crianças: urinar na cama é muitas vezes um protesto contra a preferência demonstrada pelos pais por outro filho. Há países em que os homens urinam sentados e acontece que mulheres urinem de pé: fazem-no
habitualmente muitas camponesas; mas, na sociedade ocidental contemporânea, querem geralmente os costumes que elas se agachem, ficando os homens de pé. Essa diferença é para a menina a diferenciação sexual mais impressionante. Para urinar, ela precisa agachar-se, despir-se e portanto esconder-se: é uma servidão vergonhosa e incômoda. A vergonha aumenta nos casos frequentes em que sofre de emissões urinárias involuntárias, nos casos de ataques de riso, por exemplo; o controle é menos seguro nela do que nos meninos. Nestes, a função urinária apresenta-se como um jogo livre que tem a atração de todos os jogos em que a liberdade se exerce; o pênis deixa-se manipular e através dele pode-se agir, o que constitui um dos interesses profundos da criança. Uma menina, vendo um menino urinar, declarou com admiração:”Como é cômodo!”. O jato pode ser dirigido à vontade, a urina lançada longe: o menino aufere disso um sentimento de onipotência. Freud falou “da ambição ardente dos antigos diuréticos”; Stekel discutiu com bom senso a fórmula, mas é verdade, como diz Karen Horney, que “fantasias de onipotência, principalmente de caráter sádico, associam-se muitas vezes ao jato masculino de urina”; esses fantasmas que sobrevivem em alguns homens são importantes na criança. Abraham fala do grande prazer “que as mulheres experimentam em regar o jardim com uma mangueira”; e creio, de acordo com as teorias de Sartre e Bachelard, que não é necessariamente a assimilação da mangueira ao pênis que é fonte desse prazer; todo jato de água se apresenta como um milagre, um desafio à gravidade: dirigi-lo,governá-lo é obter uma pequena vitória sobre as leis naturais. Em todo caso, há nisso, para o menino, um divertimento quotidiano que não está ao alcance de suas irmãs. Ele permite, demais, principalmente no campo, estabelecer através do jato urinário múltiplas relações com as coisas: água, terra, espuma, neve etc. Há meninas que, para conhecer tais experiências, se deitam de costas e tentam fazer a urina “esguichar para cima”, ou que se exercitam em urinar em pé. Segundo Karen Horney, invejariam igualmente aos meninos a possibilidade de exibição que lhes é dada. E conta: “Uma doente exclamou subitamente, depois de ter visto na rua um homem urinando: Se pudesse pedir alguma coisa à Providência, seria poder urinar, uma única vez na vida, como um homem”. Parece às meninas que o menino, tendo direito de bulir no pênis, pode servir-se dele como de um brinquedo,
ao passo que os órgãos femininos são tabus. Que esse conjunto de fatores torne desejável a muitas delas a posse de um sexo masculino, é um fato que bom número de inquéritos e de confidencias recolhidas por psiquiatras testemunham. Havelock Ellis, em O Ondinismo, sobretudo quando cita as palavras de uma paciente que designa pelo nome de Zênia: “O ruído de um jato de água sair de uma longa mangueira, sempre foi muito excitante para mim, lembrando-me o jato de urina observado durante minha infância em meu irmão e mesmo em outras pessoas”. Outra paciente, Mme R. S., conta que, quando criança, gostava de segurar o pênis de um colega; um dia deram-lhe um tubo de regar: “Pareceu-me delicioso segurá-lo como se segurasse um pênis”. Ela insiste no fato de que o pênis não tinha para ela nenhum sentido sexual; só sabia que servia para urinar. O caso mais interessante é o de Florrie, recolhido por Havelock Ellis (Estudos de Psicologia Sexual, t. 13) e cuja análise Stekel retomou posteriormente.

Dou portanto aqui o relato minucioso do caso:

Trata-se de uma mulher muito inteligente, artista, ativa, biologicamente normal e não invertida. Conta ela que a função urinária desempenhou papel importante em sua infância; brincava de jogos urinários com os irmãos e molhavam as mãos sem nenhuma repugnância: “Minhas primeiras concepções da superioridade dos homens relacionaram-se com os órgãos urinários. Ressentia-me da Natureza por me ter privado de um órgão tão cômodo e tão decorativo. Nenhuma chaleira privada de seu bico jamais se achou tão miserável. Ninguém precisou insuflar-me a teoria da predominância e da superioridade masculinas. Tinha uma prova constante sob os olhos”. Ela própria experimentava grande prazer em urinar no campo. “Nada se lhe afigurava comparável ao ruído encantador do jato sobre as folhas mortas em um recanto de bosque e ela observava-lhe a absorção. Mas o que mais a fascinava era urinar na água.” É um prazer a que muitos meninos são sensíveis e há toda uma série de estampas pueris e vulgares que mostram meninos urinando em tanques ou regatos. Florrie queixa-se de que a forma de suas calças a impedia de se entregar às experiências que quisera tentar; muitas vezes durante os passeios no campo, acontecia-lhe reter a urina o mais possível e, bruscamente, aliviar-se de pé. “Recordo perfeitamente a sensação estranha e proibida desse prazer e também meu espanto de que o jato pudesse sair quando eu estava em pé.” A seu ver, as formas das roupas infantis têm ‘muita importância na psicologia da mulher em geral. “Não foi apenas para mim uma fonte de aborrecimentos ter de desfazer-me de minha calça e depois abaixar-me para não lhe sujar a frente. A parte de trás , que deve ser puxada e deixa as nádegas a nu, explica por que, em muitas mulheres, o pudor situa-se atrás e não na frente. A primeira distinção sexual que se impôs a mim, na verdade, a grande diferença, foi verificar que os meninos urinavam de pé e as meninas agachadas. Foi provavelmente assim que meus mais antigos sentimentos de pudor se associaram às minhas nádegas mais do que a meu púbis.” Todas essas impressões assumiram, em Florrie, importância extrema porque o pai a chicoteava frequentemente até o sangue e uma governante, certa vez, a surrara a fim de obrigá-la a urinar; ela era obcecada por sonhos e fantasias masoquistas em que se via açoitada por uma preceptora sob os olhos de toda a escola e urinando, então, contra a vontade, “ideia que me causava uma sensação de prazer realmente curiosa”. Aos 15 anos, aconteceu-lhe urinar de pé, na rua deserta, instada por uma necessidade urgente. “Analisando minhas sensações, penso que a mais importante era a vergonha de estar em pé e o comprimento do trajeto que o jato deveria percorrer entre mim e a terra. Essa distância fazia disso algo importante e risível, ainda que q vestido o escondesse. Na atitude habitual havia um elemento de intimidade. Criança, mesmo grande, o jato não podia percorrer um longo trajeto; mas, com 15 anos e alta, senti vergonha em pensar no comprimento do trajeto. Tenho certeza de que as senhoras as quais me referi, que fugiram apavoradas do mitório moderno de Portsmouth, consideraram muito indecente para uma mulher ficar em pé e de pernas abertas, levantar as saias e projetar tão longo jato por baixo.” Florrie recomeçou aos vinte anos a experiência e a repetiu, posteriormente, muitas vezes; sentia uma mistura de volúpia e de vergonha à ideia de que podia ser surpreendida, sendo-lhe impossível parar. “O jato parecia sair de mim sem meu consentimento e, no entanto, causava-me maior prazer do que se o houvesse feito voluntariamente “Essa sensação curiosa de que é tirado de nós por algum poder invisível, que decidiu que o faríamos, é um prazer exclusivamente feminino
e de um encanto sutil. Há um encanto agudo em sentir a torrente sair em virtude de uma força mais poderosa do que nós mesmas.” Posteriormente, Florrie desenvolveu em si um erotismo flagelatório sempre acompanhado de obsessões urinárias.

Esse caso é muito interessante porque focaliza vários elementos da experiência infantil. Mas são evidentemente circunstâncias singulares que lhes conferem tão exagerada importância. Para as meninas normalmente educadas, o privilégio urinário do menino é coisa demasiado secundária para engendrar diretamente
um sentimento de inferioridade. Os psicanalistas que supõem, segundo Freud, que a simples descoberta do pênis bastaria para engendrar um traumatismo, desconhecem profundamente a mentalidade infantil; esta é muito menos racional do que parecem imaginar; ela não põe categorias definitivas e não se embaraça com a contradição. Quando a menina, ainda muito pequena, declara: “Também tive um” ou “também terei um” ou até “também tenho um”, não se trata de uma defesa de má-fé; a presença e a ausência não se excluem; a criança — como o provam seus desenhos — acredita muito menos no que vê com seus olhos do que nos tipos significativos que fixou de uma vez por todas: desenha muitas vezes sem olhar e, em todo caso, só encontra em suas percepções o que nelas projeta. Saussure, que insiste justamente neste ponto, cita esta importante observação de Luquet: “Uma vez reconhecido errado, o traçado é como inexistente, a criança literalmente não mais o vê como que hipnotizada pelo traçado novo que o substitui, da mesma maneira que não leva em conta as linhas que podem encontrar-se acidentalmente em seu papel”. A anatomia masculina constitui uma forma forte que amiúde se impõe à menina; e literalmente ela não vê mais seu próprio corpo. Saussure cita o exemplo de uma menina de 4 anos que, tentando urinar como um menino por entre as barras de uma grade, dizia que desejava “um negocinho comprido que escorre”. Afirmava ao mesmo tempo possuir um pênis e não o possuir, o que concorda com o pensamento por “participação” que Piaget descreveu nas crianças. A menina pensa de bom grado que todas as crianças nascem com um pênis, mas que, depois, os pais cortam alguns para fazer as mulheres; essa ideia satisfaz o artificialismo da criança que, divinizando os pais, “concebe-os como a causa de tudo o que ela possui”, diz Piaget. Não vê a princípio uma punição na castração. Para que esta assuma um caráter de frustração, é preciso que a menina já se ache, por uma razão qualquer, descontente com sua situação. Como justamente observa H. Deütsch, um acontecimento exterior, como a visão de um pênis, não poderia comandar um desenvolvimento interno: “A visão do órgão masculino pode ter um efeito traumático, diz ela, mas somente com a condição de que a tenha precedido uma série de experiências anteriores, suscetíveis de provocar esse efeito”. A menina projetará sua insatisfação no órgão masculino se se sentir, por exemplo, incapaz de realizar seus desejos de masturbação ou exibição, se seus pais reprimirem seu onanismo, se ela tiver a impressão de ser menos querida, menos estimada do que seus irmãos. “A descoberta, feita pela menina, da diferença anatômica com o menino é a confirmação de uma necessidade que sentiu anteriormente, uma racionalização, por assim dizer, dessa necessidade”. E Adler insistiu justamente no fato de que é a valorização efetuada pelos pais e pelo ambiente que dá ao menino o prestígio, de que o pênis se torna a explicação e o símbolo, aos olhos da menina. Ela considera o irmão superior; ele próprio orgulha-se de sua virilidade; ela o inveja então e sente-se frustrada. Por vezes, toma-se de rancor contra a mãe, mais raramente contra o pai; ou então acusa-se a si própria de se ter mutilado, ou consola-se pensando que o pênis se acha escondido dentro de seu corpo e que um dia aparecerá.

É certo que a ausência do pênis desempenhará um papel importante no destino da menina, ainda que ela não inveje seriamente a posse dele. O grande privilégio que o menino aufere disso é o fato de que, dotado de um órgão que se mostra e pode ser pegado, tem a possibilidade de alienar-se nele ao menos parcialmente. Os mistérios de seu corpo, suas ameaças, êle os projeta fora de si, o que lhe permite mantê-los a distância: sem dúvida, sente-se em perigo em seu pênis, teme a castração, mas é um medo mais fácil de dominar do que o temor difuso da menina em relação a seus “interiores”, temor que amiúde se perpetua através de toda a sua vida de mulher. Ela tem uma preocupação extremada por tudo o que ocorre dentro dela; é desde o início muito mais opaca a seus próprios olhos, mais profundamente assaltada pelo mistério perturbador da vida do que o homem. Possuindo um alter ego em que se reconhece, pode o menino ousadamente assumir sua subjetividade; o próprio objeto em que se aliena torna-se um símbolo de autonomia, de transcendência, de poder: o menino mede o comprimento de seu pênis, compara com os colegas a força do jato urinário; mais tarde, a ereção e a ejaculação são fontes de satisfação e desafio. A menina, entretanto, não pode encarnar-se em nenhuma parte de si mesma. Em compensação, põem-lhe nas mãos, a fim de que desempenhe junto dela o papel de alter ego, um objeto estranho: uma boneca. Cumpre notar que chamam igualmente poupée (boneca) à atadura em que se envolve um dedo ferido: um dedo vestido, separado, é olhado com alegria e uma espécie de orgulho, a criança esboça com ele o processo de alienação. Mas é um boneco com cara humana — ou sabugo de milho ou um simples pedaço de pau — que substitui de maneira mais satisfatória esse duplo, esse brinquedo natural que é o pênis.

Simone Beauvoir em O segundo sexo – Experiência e vida.