Passarei toda a minha vida sem um momento de sossego – Liev Tostói

E recordou a conversa com a mulher da estalagem. Daria perguntou-lhe se ela tinha filhos, a bela moça respondera-lhe alegremente:

– Tive uma filha, mas Deus a levou. Enterrei-a na quaresma.
– Tiveste muita pena? – perguntou-lhe Daria Alexandrovna.
Ter pena, por quê? O velho tem muitos netos, não lhe faz falta, é uma preocupação a menos. Que imagina a senhora que uma pessoa pode fazer quando tem um filho nos braços?

Esta resposta parecia-lhe odiosa; no entanto, não havia maldade alguma no rosto daquela mulher e Daria verificava agora certa razão naquelas palavras.

“Em resumo”, pensava ela, ao relembrar os seus quinze anos de vida matrimonial, “passei a minha mocidade aos vômitos, sentido me estúpida e desgostosa com tudo e com um aspecto horrível. Se até a nossa linda Kitty está feia, como eu não haveria de ficar toda vez que estou grávida?… E depois o parto, o medonho parto, a dilaceração do último instante, o que uma pessoa sofre enquanto amamente, as noites sem dormir, que sofrimento, que sofrimento atroz!….”

E Daria estremeceu ao lembrar-se dos seios com rachaduras, mal que a atormentava toda a vez que amamentava os filhos.

“E depois as doenças das crianças, o contínuo receio em que se vive, as preocupações com a educação, com os maus instintos, os estudos, os latim e as dificuldades…. Tudo tão difícil, tão incompreensível!… E pior que tudo, a morte das crianças.”

E de novo lhe veio à memória a lembrança que sempre lhe alanceava o coração de mãe: a morte de seu último filho, que a difteria levara, o enterro, a indiferença de toda a gente diante desse pequeno caixão cor-de-rosa e a sua dor solitário, o seu coração despedaçado, tendo sempre diante dos olhos aquele cabelinho encaracolado e aquela boquinha aberta e surpresa, na altura em que lhe colocavam em cima a tampa rósea do ataúde com uma cruz dourada!

“E tudo isto para quê? Que resultará de tudo isto? Passarei toda a minha vida sem um momento de sossego: ora grávida, ora amamentando, sempre extenuada e mal disposta, atormentando me, atormentando os outros e causando repugnância ao meu marido. Para deixar uma família infeliz, pobre e mal educada! O que eu teria feito este verão se o Kóstia e a Kitty não tivessem me convidado para passar a temperada na casa deles? No entendo, a verdade é esta, por mais afetuosos e delicados que eles sejam, não poderão fazer o mesmo muitas vezes. Chegará o momento em que eles ficaram enfadados da gente? O pai quase ficou sem nada por nossa causa, também não me poderá ajudar. Como hei eu de chegar a fazer dos meus filhos homens? Terei de procurar proteções, terei de me humilhar… Se a morte não os levar, a melhor coisa que poderei desejar para eles e que não venham a ser uns inúteis. E para chegar até aí, que sofrimentos! Toda a minha vida perdida”

“Realmente, havia muita verdade no ingênuo cinismo das palavras da jovem camponesa”. pensou.

Liev Tolstói em Anna Karenina.