A ideia de um paraíso terreno, invadira durante milhares de anos a imaginação humana – George Orwell

(…) O movimento cíclico da história era agora inteligível ou parecia ser; e sendo inteligível, era alterável. Mas a causa principal, subsistente, era que, desde o começo do século vinte, a igualdade humana se tornara tecnicamente possível. Verdade ainda que os homens não eram iguais nos seus talentos inatos e que as funções tinham ser especializadas de maneira que favoreciam uns indivíduos contra outros; porém não havia mais nenhuma necessidade real de distinção de classe nem de grades diferenças de fortuna. Em épocas anteriores, as distinções não tinham sido apenas inevitáveis como desejáveis. A desigualdade era o preço da civilização. Todavia, com o desenvolvimento da produção a máquina, alterou-se o caso. Mesmo que ainda fosse necessário aos seres humanos desempenhar diferentes tipos de profissão, já não era preciso que vivessem em diferentes níveis sociais ou econômicos. Portanto, do ponto de vista dos novos grupos que estavam a pique de tomar o poder, a igualdade humana não era mais um ideal a atingir, era um perigo a evitar.

Em épocas mais primitivas, quando de fato não era possível uma sociedade justa e pacífica, fora bem fácil acreditar nela. A ideia de um paraíso terreno em que os homens vivessem juntos num estado de fraternidade, sem leis nem trabalho brutal, invadira durante milhares de anos a imaginação humana. E essa visão tinha certo fascínio mesmo sobre os grupos que realmente se beneficiaram de cada mudança histórica. Os herdeiros das revoluções inglesa, francesa e americana haviam parcialmente acreditado nas próprias frases a respeito dos direitos do homem, liberdade de palavra, igualdade perante a lei e até haviam permitido que sua conduta fosse por elas influenciadas, dentro de certos limites. Mas ao advir a quarta década do século vinte, eram autoritárias todas as principais correntes do pensamento político. O paraíso terreno desacreditara no momento exato em que tornara realizável. Cada nova teoria política fosse qual fosse o seu rótulo, conduzia de nova à hierarquia e a regimentação. E no endurecimento geral de atitudes verificado por volta de 1930, práticas  havia longo tempo abandonadas, em alguns casos durante séculos – prisão sem julgamento, uso de prisioneiros de guerra como escravos, exceções públicas, tortura para arrancar confissões, o uso de reféns e deportação de populações inteiras – não só voltaram a ser comuns como eram toleradas e até defendidas por pessoas que se consideram esclarecidas e progressivas.

George Orwell em 1984.