O desenvolvimento japonês e a rejeição das doutrinas neoliberais

Um grupo de eminentes economistas japoneses publicou recentemente um estudo, em vários volumes, sobre os programas japoneses de desenvolvimento econômico desde a II Grande Guerra. Eles assinalam que o Japão rejeitou as doutrinas neoliberais de seus conselheiros norte-americanos, adotando em seu lugar uma política industrial que atribuía um papel preponderante ao Estado. Os mecanismos de mercado foram gradualmente introduzidos pela burocracia estatal e pelos conglomerados industrial financeiros à medida que cresciam as perspectivas de sucesso comercial. A rejeição dos preceitos da economia ortodoxa foi uma condição do “milagre japonês”, concluem os economistas. O êxito do país é impressionante. Virtualmente desprovido de uma base de recursos naturais, o Japão se tomou, na década de 1990, a maior economia industrial do mundo e a mais importante fonte mundial de investimento estrangeiro, além de responder por metade da poupança líquida mundial e financiar o déficit norte-americano. […]

Na edição de agosto de 1996 do Research Observer, órgão do Banco Mundial, o então diretor do Conselho de Assessoria Econômica do presidente Clinton, Joseph Stiglitz, tira “lições do Milagre Leste Asiático”, dentre elas a de que “o governo assumiu a maior parcela de responsabilidade na promoção do crescimento econômico”, abandonando a “religião” de que o mercado é quem sabe mais e intervindo para intensificar a transferência de tecnologia, a igualdade relativa, a educação, a saúde, além da coordenação e planejamento industrial. O Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano 1996 destaca a importância decisiva das políticas governamentais de “capacitação de recursos humanos e atendimento às necessidades sociais básicas” como “trampolim para o crescimento econômico sustentado”. As doutrinas neoliberais, independentemente do que se pense delas, debilitam a educação e a saúde, aumentam a desigualdade social e reduzem a parcela do trabalho na distribuição da renda. Ninguém duvida disso seriamente hoje em dia.

Um ano mais tarde, depois que as economias asiáticas foram duramente atingidas por crises financeiras e de mercado, Stiglitz – já então diretor do Banco Mundial – reiterou suas conclusões (Keynote Adress, atualizado, Annual World Bank Conference on Development Economics 1997, Banco Mundial 1998, Wider Annual Lectures 2, 1998). “A crise atual no leste da Ásia não representa uma refutação do ‘Milagre Leste Asiático”, escreveu. “Os fatos básicos permanecem: nenhuma outra região do mundo jamais experimentou uma elevação de renda tão vertiginosa nem viu tanta gente sair da pobreza em tão curto espaço de tempo”. Essas “espantosas conquistas” são realçadas pelo fato de a renda per capita da Coréia do Sul ter decuplicado nas últimas três décadas, um sucesso sem precedente, com “fortes doses de participação governamental”, em violação ao Consenso de Washington, mas de acordo com o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos e da Europa, ele acrescenta com justeza. “Longe de ser uma refutação do “Milagre Leste Asiático”, conclui, a “grave perturbação financeira” na Ásia “talvez seja, em parte, conseqüência do abandono das estratégias que tão bem serviram às suas economias, incluindo os mercados financeiros bem regulados” – em medida não pequena, uma renúncia a estratégias bem-sucedidas em atendimento às pressões ocidentais. Outros especialistas expressaram opiniões similares, muitos de maneira ainda mais enfática.

Noam Chomsky em Lucro ou pessoas.